(continua)
domingo, 20 de janeiro de 2013
My head your chest
Encontrei-me, encontrei-me no
meio do deserto, sem água, sem pensamentos, sem palavras, simplesmente
encostada ao teu peito, a respirar e a hidratar-me com esse teu amor intenso. Encontraste-me
primeiro sim, o que interessa é que ajudaste a encontrar-me quando eu nem
tencionava procurar-me. Entregaste-te para eu poder entregar-me. E agora aqui
estou eu, comigo outra vez, no meu mundo de encontros e desencontros, correntes
e tempestades, de remorsos e recalcamentos, de pensamentos, de memórias de âncoras.
A sorrir, a sorrir por simplesmente estar a ver a tua mão entrelaçada na minha,
os teus olhos a contornarem os meus traços… A sorrir por te ter assim desta
maneira, a pensar sem pensar, a sonhar sem sonhar, a ter pouco mas com tanto. E
tudo porque estou encostada ao teu peito, num pensamento tão profundo que acabo
por desligar da realidade, acabo por desligar-me de ti e ligar-me somente ao
teu corpo, sentir todos os pontos que se tocam, esperar pela tua expiração para
inspirar o teu ar, a ouvir e sentir as tuas arritmias e tudo o que é mais
profundo e difícil de se ouvir. No meio disso, quase que me perco em ti, no teu
peito, a minha respiração compassada começa a ficar sem folgo, a dor quase
volta… Mas tu és tão mais forte que isso, mais forte que eu e que a minha
cabeça, que antes de cair tu amparas-me sem dar conta que estou prestes a dar
uma queda outra vez, sem querer e como sempre puxas-me contra ti sem eu ter
tempo de olhar para o abismo. Se eu tinha uma ideia de segurança, agora tenho
uma ideia de segurança intensificada e se aquilo que eu tinha era a minha ideia
de amor, isto é a coisa mais inexplicável que já tentei explicar!
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
"pensar é destruir"
O homem vulgar, por mais dura que lhe seja a vida, tem ao menos a felicidade de a não pensar. Viver a vida de correntemente exteriormente, como um gato ou um cão - assim fazem os homens gerais, e assim se deve viver a vida para que possa contar a satisfação do gato e do cão.
Pensar é destruir. O próprio processo do pensamento o indica para o mesmo pensamento, porque pensar é decompor. Se os homens soubessem meditar no mistério da vida, se soubessem sentir as mil complexidades que espiam a alma em cada pormenor da acção, não agiriam nunca, não viveriam até. Matar-se-iam assustados, como os que se suicidam para não ser guilhotinados no dia seguinte.
Pensar é destruir. O próprio processo do pensamento o indica para o mesmo pensamento, porque pensar é decompor. Se os homens soubessem meditar no mistério da vida, se soubessem sentir as mil complexidades que espiam a alma em cada pormenor da acção, não agiriam nunca, não viveriam até. Matar-se-iam assustados, como os que se suicidam para não ser guilhotinados no dia seguinte.
Fernando Pessoa
sábado, 5 de janeiro de 2013
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